Fatores associados a um erro de diagnóstico: relato de um caso clínico

Objetivo
Descrever alguns fatores relacionados com a resolução de um caso de erro de diagnóstico que permaneceu sem diagnóstico durante mais de seis meses. Embora a comparação ou a explicação em torno deste caso clínico não possam ser generalizadas nem aplicadas a outras situações, alguns dos fatores aqui descritos ocorrem com bastante frequência em diferentes contextos.
Caso clínico
Um homem de 37 anos, saudável e sem hábitos tóxicos, começou a sentir uma forte dor de cabeça unilateral nas regiões temporal e parietal direitas do crânio. A dor era muito intensa, durava vários minutos, não era acompanhada de febre nem vómitos e remitia progressivamente com um analgésico; no entanto, o sintoma reaparecia de forma episódica, pelo menos uma vez por mês durante um período de seis meses.
Evolução clínica
O doente residia na Alemanha naquela altura e solicitou um diagnóstico em várias consultas ao seu médico particular. Foi-lhe diagnosticada enxaqueca e iniciou um tratamento, sem que se verificasse qualquer melhoria. Teve de abandonar o seu emprego devido à dor.
Deslocou-se para Espanha, onde tinha nascido, e, numa ocasião, dirigiu-se ao serviço de urgências devido à dor. O médico responsável, após uma avaliação e um exame físico, solicitou uma tomografia computadorizada do crânio. Anotou o número de consultas que o doente tinha feito na Alemanha e a ausência de uma imagem cerebral, provavelmente porque o médico de lá nunca tinha considerado um diagnóstico grave ou porque queria poupar em exames diagnósticos.
A tomografia computadorizada revelou um quadro compatível com uma trombose venosa craniana no lado direito do cérebro, o que foi confirmado após uma ressonância magnética nuclear.

Análise
Podemos classificar a situação como um erro de diagnóstico relacionado com um atraso no mesmo. Tentaremos analisar alguns pontos-chave que poderão estar associados a este erro de diagnóstico.
– Diagnóstico pouco frequente: uma trombose venosa craniana é um diagnóstico muito raro num doente saudável, sem problemas de coagulação.
– Escassez de sintomas: a dor de cabeça é o sintoma mais frequente associado a múltiplos diagnósticos intracranianos, e o diagnóstico torna-se ainda mais difícil quando não se apresentam outros sinais ou sintomas.
-Sistema privado ou público: este é um aspeto controverso do diagnóstico médico. É evidente que, em geral, a prática médica privada está mais relacionada com o benefício económico, o que, por vezes, pode dar origem a uma situação em que o profissional se mostre «tendencioso» na solicitação de um exame. Trata-se apenas de uma possibilidade não confirmada.
-Número de consultas: ficou estabelecido que o número de consultas por um mesmo problema clínico é um fator determinante do atraso no diagnóstico (1), principalmente no cancro. No entanto, para reconhecer este fator, o profissional de saúde deve estar realmente ciente desta situação, questionando ativamente durante a anamnese ou examinando detalhadamente o historial clínico. Esta variável específica pode ser facilmente detetada através da inteligência artificial.
Bibliografia
Autor
Dr. Lorenzo Alonso Carrión
FORO OSLER


